terça-feira, 11 de outubro de 2016

Arquivo para download: De Bactriana e as margens de Urmi à montanha e o ocaso: como introdução à leitura de Assim falou Zaratustra", por Mónica B. Cragnolini

'Assim Falou Zaratustra' é um livro para todos e para ninguém', como indica o seu subtítulo. Porque certamente qualquer um pode lê-lo, na medida em que, frente ao caráter técnico e dificultoso dos tradicionais livros de filosofia, este se apresenta como um livro de fácil leitura. Por isso, 'para todos': aproxima-te e leia. Contudo: quem pode suportá-lo? Como é possível lê-lo e permanecer igual, sem transformar-se?

[...] Não se pode ler 'Assim Falou Zaratustra' e permanecer sendo o mesmo, porque esse livro, como todas as obras de Nietzsche, é uma provocação, uma exigência, uma explosão. O Zaratustra exige 'decisões'. Isso não tem nada a ver com aquele lema que desde Sócrates se considera próprio da 'verdadeira' vida filosófica: a vida-práxis, 'viver como se pensa'. Não, não se trata disso, porque aqui não se tenta viver como pensa, mas, ao contrário, se pensa como se vive, o pensamento é vida e a vida é pensamento, assim como a escritura não é algo diferente da vida, mas é outra configuração da mesma. Não se trata aqui de harmonia de esferas separadas, ao contrário, é a 'instalação' na imanência.

Exigir 'decisões': talvez seja este um dos aspectos principais do Zaratustra, a partir do ponto de vista do seu caráter de obra transformadora. Porque é certo que não se pode lê-lo sem experimentar transformações, sem sentir a necessidade de 'revisar' atitudes, valores, hábitos, posições, seja para criticá-las, seja para afirmá-las. Por meio dele, a provocação: a reprovação ou adesão, mas quase impossível é a indiferença. Porque não se pode permanecer indiferente quando se questionam os valores que constituem a própria cultura e a forma de ser, não se pode permanecer indiferente quando ao filósofo o chama de 'híbrido de planta e fantasma', ao homem da ciência, 'consciencioso do espírito', ao homem religioso, 'tuberculoso da alma'. Não se pode permanecer indiferente porque o texto aponta como uma arma, o texto ataca e busca ferir, o texto é um instrumento de combate, quer destruir e aniquilar. Há algo para se destruir: a decadência, a enfermidade. Há inimigos, a escritura é também uma estratégia de combate. Não existe aqui nada da 'assepsia' filosófica, nem da abstração e palidez Konisberguense. À Elizabeth, Nietzsche escreve que o Zaratustra não é um presente que se tenha que agradecer festivamente: ali não existe nada para agradecer, ali deve haver dor da transformação, dor diante da agressão, ruptura com as formas de configurações enfermas, ânsias de saúde...

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