sábado, 12 de março de 2016

Arquivo para download: O devir revolucionário e as criações políticas, por Gilles Deleuze

As minorias e as maiorias não se distinguem pelo número. Uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. O que define a maioria é um modelo aceito: por exemplo, o europeu mediano, adulto, masculino, residente em cidades... Uma vez que uma minoria não tem um modelo, é um devir, um processo. Podemos dizer que a maioria é Ninguém. Todos, em um aspecto ou em outro, estão em um devir minoritário que leva — caso trilhado — a caminhos desconhecidos. Quando uma minoria cria modelos para si, é porque ela quer se tornar majoritária, e essa criação é sem dúvida inevitável, tendo em vista sua sobrevivência ou salvação (por exemplo, através da criação de um Estado, de um reconhecimento, da imposição de seus direitos). Mas seu poder vem daquilo que ela soube criar, e que entrará mais ou menos no modelo, sem dele depender. O povo é sempre uma minoria criativa e que assim permanece mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque não se dão no mesmo plano. Os maiores artistas (sem serem artistas populistas) se dirigem a um povo, e constatam que "falta o povo": Mallarmé, Rimbaud, Klee, Berg. No cinema, os Straub. O artista só pode se dirigir a um povo, ele precisa profundamente de seu envolvimento, ele não tem como criá-lo, ele não pode. A arte é que resiste: ela resiste à morte, à servidão, à fome, à vergonha. Mas o povo não pode se ocupar com a arte. Como então se cria um povo, em meio a que sofrimentos abomináveis? Quando um povo se cria, é através de seus próprios meios, mas de uma maneira que recupera alguma coisa da arte (Garel diz que o museu do Louvre, ele também, contém muito desse sofrimento abominável), ou então de maneira tal que a arte recupera o que a ele faltava. A utopia não é um bom conceito: há uma "fabulação" comum ao povo e à arte. Seria necessário retomar a noção bergsoniana de fabulação para dotá-la de um sentido político.

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