domingo, 30 de março de 2008

Arquivo para download: Nietzsche, Espinosa, o acaso e os afetos, por André Martins

O pensamento, tanto para Nietzsche quanto para Espinosa, serve, assim, para favorecer a alegria e o aumento de nossa potência de agir – aquela sendo a consequência deste. Neste sentido, nem Espinosa pretende estabelecer um controle total do acaso, e por conseguinte dos afetos (“nós não temos sobre eles [os afetos] um poder absoluto”); nem Nietzsche propõe que os afetos e o acaso tenham um poder absoluto sobre nós: “É preciso se subtrair tanto quanto possível ao acaso, às solicitações exteriores”. Assim como Espinosa propõe que conheçamos o acaso e a nossos afetos nele, a fim de favorecermos nossos encontros, transformando causas externas em nosso favor, tornando-nos não mais causas parciais mas causas adequadas de nossas ações; Nietzsche, ao mesmo tempo que aceita e aprova o acaso e o devir – “Acima de todas as coisas se estende o céu do acaso, o céu da inocência, o céu do acidente, o céu do excesso” –, propõe, tal como Espinosa, que sejamos nós que o dirijamos e não o contrário: “Ponho todo acaso a coser na minha panela. E somente quando está cozido no ponto é que lhe dou as boas vindas para fazer dele meu alimento. E na verdade, muito acaso tem me abordado como senhor, mas minha vontade lhe responde de forma ainda mais imperiosa – e prontamente ele se põe de joelhos diante de mim, suplicando – suplicando-me dar-lhe asilo e acolhida cordial, falando comigo de maneira lisonjeira: ‘Mas veja, Zaratustra, somente um amigo se aproxima assim de um amigo’.”

Artigo publicado na Revista "O que nos faz pensar", n. 14. Rio de janeiro: PUC-RJ, 2000, p. 183-198.

André Martins é Prof. Adjunto da Faculdade de Medicina da UFRJ, Departamento de Medicina Preventiva e Núcleo de Estudos de Saúde Coletiva; Doutor em Filosofia pela Université de Nice.

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