quarta-feira, 16 de maio de 2018

Arquivo para download: Identidade e diferença: impertinências, por Tomaz Tadeu

RESUMO: A questão da identidade e da diferença está no centro de boa parte das discussões educacionais atuais. Nessa discussão, a diferença acaba, em geral, reduzida à identidade. Nesta pequena coleção de afirmações, tento, inspirado sobretudo na filosofia da diferença de Gilles Deleuze, desequilibrar o jogo em favor da diferença.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Na Web: A genealogia dos preconceitos, de Oswaldo Giacoia Junior

Esse gosto pela intervenção polêmica no debate cultural, combinado ao virtuosismo estilístico sedutor, que recorre ao "pathos" poético, à paródia, à sátira, aos aforismos cortantes, fornece a atmosfera própria para a geração de mal-entendidos, pois dá a impressão superficial do entendimento fácil. A irreverência, sobretudo, é uma espécie de marca registrada de Nietzsche; ela se expressa em seu chamamento à transvaloração de todos os valores. Daqui também resulta uma mistura curiosa de atração e repulsa. Campeão do politicamente "incorreto", Nietzsche não hesitava em afrontar as convicções mais graníticas. Especialmente as "idéias modernas" de que mais nos orgulhamos. Esse delito não pode ficar sem castigo.

A crítica de Nietzsche visava a denunciar -muitas vezes por meio do exagero caricatural -uma interpretação tacanha do conceito de igualdade, como se este implicasse nivelamento e uniformização, supressão de distâncias e diferenças. Num dos casos, a ironia se dirige a uma espécie de diluição e perda irreversível do feminino; no outro, à hipocrisia latente na moderna exaltação da dignidade do trabalho, quando este é realizado em condições degradantes de repetição mecânica, impessoalidade e alienação, em que o discurso da igualdade dissimula a exploração brutal, a reificação absoluta do trabalhador. Constata-se, pois, a que ponto alcança a extensão do preconceito. Tanto mais violento, quanto mais duros os golpes que Nietzsche vibrou em nossa entranhada má consciência. Com sua impiedosa crítica da moral, ele pretendia trazer à luz os interesses, os jogos de poder e dominação, os investimentos de desejo, a idiossincrasia e estupidez transfigurados em nossos valores mais sublimes. Assim fazendo, revolvia as mais dolorosas e bem protegidas feridas narcísicas da alma moderna, desmascarando a impostura travestida em ideal. 

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Arquivo para download: Educação (bildung) enquanto verniz: crítica ao Estado e psicofisiologia, por Wilson Antonio Frezzatti Júnior

Ao criticar a Bildung alemã, no sentido de formação ou educação, o filósofo alemão propõe uma nova formação. Nietzsche sempre foi um crítico feroz de sua época, considerada decadente e medíocre, incapaz de produzir uma grande cultura. Nesse contexto, a única coisa que a educação (Erziehung) e a formação (Bildung) podem fazer é encobrir – e não erradicar – a verdadeira compleição do indivíduo, ou seja, enganar “acerca da plebe herdada no corpo e na alma”. As críticas que Nietzsche faz à formação e à cultura alemãs não o impedem de propor ações para uma educação efetiva. O fragmento póstumo 9 outono 1887, intitulado “Os fortes do amanhã”, propõe o uso de certos comportamentos para elevar o homem: não devemos depender do acaso para a produção do homem forte, mas devemos produzi-lo através da educação. Uma educação que pense no futuro e não no presente: “A mediocridade crescente do ser humano é precisamente a força que nos impele a pensar na seleção [Züchtung] de uma raça [Rasse] mais forte: que encontraria seu excedente justamente em tudo aquilo que a espécie medíocre se enfraqueceria (vontade, responsabilidade, segurança de si, capacidade de estabelecer alvos para si)” (Fragmento póstumo 9 outono 1887). Os meios utilizados para isso são: isolamento, exercício de valores inversos ao da mediocridade, pathos da distância. Os costumes de uma cultura elevada devem ser opostos ao da cultura vigente decadente.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Arquivo para download: Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze, por François Dosse

Por trás da obra filosófica de Gilles Deleuze, voltada notadamente à construção de conceitos, percebe-se sua propensão à defesa de causas políticas, pontuais e concretas. A partir de maio de 1968, ele participa de movimentos sociais (GIP) e de debates políticos e intelectuais que animaram a década de 1970. Seus escritos filosóficos atestam seu espírito ”rebelde” e sua aversão a toda forma de poder e de opressão.

domingo, 1 de outubro de 2017

Arquivo para download: Micropolítica do fascismo, por Félix Guattari

O que assegura a passagem das grandes entidades fascistas clássicas à molecularização do fascismo a que assistimos hoje? Uma simples repressão maciça, global, cega não é mais suficiente. O capitalismo é obrigado a construir e impor seus próprios modelos de desejo, e é essencial para sua sobrevivência que consiga fazer com que as massas que ele explora os interiorizem. Ao lado do fascismo dos campos de concentração - que continuam a existir em inúmeros países -, desenvolvem-se novas formas de fascismo molecular. Por toda a parte, a máquina totalitária experimenta estruturas que melhor se adaptem à situação: isto é, mais adequadas para captar o desejo e colocá-lo a serviço da economia do lucro. Dever-se-ia, portanto, renunciar definitivamente a fórmulas demasiado simplistas do gênero: "o fascismo não passará". Ele não só já passou, como passa sem parar. Passa através da mais fina malha; ele está em constante evolução; parece vir de fora, mas encontra sua energia no coração do desejo de cada um de nós. Em situações aparentemente sem problemas, catástrofes podem aparecer de um dia para o outro. O fascismo, assim como o desejo, está espalhado por toda parte, em peças descartáveis, no conjunto do campo social; ele toma forma, num lugar ou noutro, em função das relações de força. Pode-se dizer dele, ao mesmo tempo, que é superpotente e de uma fraqueza irrisória. Em última análise, tudo depende do talento dos grupos humanos em se tornarem sujeitos da História, isto é, em agenciar, em todos os níveis, as forças materiais e sociais que se abrem para um desejo de viver e mudar o mundo. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Arquivo para download: Trechos selecionados da aula "Anti-Édipo e outras reflexões", por Gilles Deleuze

O presente texto corresponde à primeira parte de uma aula que versa sobre os principais temas encontrados n’O anti-Édipo, de Deleuze e Guattari. O tom adotado por Deleuze é coloquial, e as intervenções, por vezes, enfáticas. O conteúdo destas não é sempre discernível, fato que não compromete em nada a compreensão dos problemas colocados, e nem a atmosfera de tais momentos. Desde o início, pela distinção dos grandes tipos de interpretação da psicose, somos apresentados à célebre concepção de três linhas abstratas (de naturezas bastante distintas); tema que percorre toda a Esquizoanálise. Há a homenagem a Karl Jaspers, e a identificação de uma vertente predecessora. Há os exemplos literários, que fomentam a tentativa de resgate da dignidade ao delírio, e àqueles que com ele trava um embate. Há a afirmação de sua potência (“delira-se o mundo”), bem como as críticas à psicanálise, consequências desses posicionamentos.

sábado, 2 de setembro de 2017

Arquivo para download: O vocabulário de Deleuze, por François Zourabichvili

Introdução.................................................................................................................... 3
Verbetes .................................................................................................................. 6
Acontecimento [événement] ............................................................................... 6
Agenciamento [agencement]............................................................................... 8
Aion[Aiôn]............................................................................................................... 11
Complicação [complication] .............................................................................. 13
Corpo sem órgãos (CsO) [corps sans organes (CsO)] ........................................ 14
Corte fluxo (ou síntese passiva, ou contemplação)
[coupure flux (ou synthèse passive, ou contemplation)]......................................16
Cristal de tempo (ou de inconsciente)
[cristal de temps (ou d'inconscient)]...................................................................17
Desterritorialização (e território)
[déterritorialisatioin (et territoire)] ..................................................................... 22
Devir [devenir] ................................................................................................. 24
Distribuição nômade (ou espaço liso)
[distribtttion nomade (ou espace lisse)] ............................................................ 26
Empirismo transcendental [empirisme transcendental] .......................................27
Linha de fuga (e menor-maior)
[ligue de fuite (et mineur/majeur)] .................................................................... 29
Máquina de guerra [machine de guerre] ........................................................... 33
Máquinas desejantes [machines désirantes]...................................................... 35
Multiplicidades [multiplicités] ......................................................................... 37
Plano de imanência (e caos)
[plan d'immanence (et chaos)] ...................................................................... 39
Problema [problème] ..................................................................................... 47
Ritornelo (diferença e repetição)
[ritournelle (différence et répétition)] ............................................................. 50
Rizoma [rhizome] ......................................................................................... 51
Singularidades pré-individuais
[singidarités pré-individtcelles] ..................................................................... 53
Síntese disjuntiva (ou disjunção inclusa)
[synthèse disjonctive (ou disjonction incluse)] ............................................. 55
Univocidade do ser [Univocité de l'être] ............. ........................................... 57
Vida (ou vitalidade) não-orgânica
[vie (ou vitalité) non-organique] .................................................................. 59
Virtual [virtuel] ............................................................................................. 62

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Arquivo para download: Deleuze & Guattari: linguagem e devir, por Felipe Bó Huthmacher

Este é o capítulo 3 da dissertação "A linguagem entre o devir e a alienação".

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terça-feira, 25 de julho de 2017

Arquivo para download: Breves notas sobre a crítica nietzschiana da consciência e da linguagem, por Tereza Cristina B. Calomeni

Afastado da linguagem redutora e simplificadora da metafísica e da ciência – linguagem animada pela “vontade de verdade a todo custo” porque comprometida com uma determinada concepção de ser e de verdade e, portanto, com uma determinada concepção de filosofia –, Nietzsche aposta na possibilidade de construção de outro tipo de linguagem, uma linguagem que, próxima da arte e liberta das amarras do compromisso com a verdade ou o ser em si, seja capaz de, ao menos, tentar, por outro caminho, exprimir, por excesso, o incomum, o singular, o próprio. Não por acaso, a crítica da linguagem é um dos mais relevantes elementos da crítica da tradição metafísica e da ciência, das ideias de ser e de verdade. Não por acaso, no texto inacabado de 1873, Nietzsche reconhece a dimensão metafórica e figurativa da palavra – o valor estético da linguagem. Não por acaso, o próprio Nietzsche inventa nova linguagem, bem distinta da linguagem metafísica e científica, e faz seu estilo explodir, intenso e exuberante, em metáforas, parábolas, metonímias, paródias, aforismos, ditirambos, como a suspender a forma tradicional de pensamento e de expressão, como a procurar, incansável, pela elegante união entre palavra e imagem. Tributário de nova forma de conceber a filosofia, o conhecimento e a verdade, o uso artístico da linguagem é, para Nietzsche, o mais apto ao ensaio de expressão do próprio, do singular, do incomum.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Na Web: Ansiedade sem aplicativo, por Oswaldo Giacoia Júnior

O ritmo da modernidade é marcado pela intensificação da agitação em escala global, do ativismo e do falatório, característicos do estilo de vida em sociedades tecnologicamente desenvolvidas. Nossa cadência é determinada pela velocidade operante nos circuitos informativos e comunicacionais nos quais estamos enredados. Como disse o filósofo Adauto Novaes, somos uma civilização de falastrões, que se obstina em Facebooks, celulares, conversas virtuais, tuítes (escritos na cadência da fala; ao contrário de Macunaíma, já não temos mais que aprender o português escrito e o português falado). Nunca se falou e escreveu tanto, multiplicando-se a injunção à bavardage pelos meios e canais mais diversos, acelerando vertiginosamente a temporalidade e proliferando espaços imateriais de fala e escrita conectados em redes sociais de amplíssimo alcance. O WhatsApp, em especial, tornou-se mania, uma irresistível solicitação que nos mantém permanentemente online, fazendo desaparecer nossas horas de estudo e contemplação, alterando nossas noções de urgência e emergência.

O filósofo Friedrich Nietzsche ajuda-nos a refletir sobre essa compulsão à velocidade comunicacional e ao formigamento dos discursos vazios em dimensão planetária. Para uma percepção refinada e extemporânea como a de Nietzsche, essa curiosidade generalizada, esse anseio pela novidade, que torna tudo imperiosamente urgente, é um sintoma de corrupção do gosto e embotamento de corações e mentes, indício de uma ausência de pensamento, em que só há percepção para o elemento quantitativo, para a maximização de performances, numa alucinada e constante busca de satisfações imediatas. Em seu tempo, Nietzsche já discernira esse traço como um ingrediente do american way of life: “Há uma selvageria pele vermelha, própria do sangue indígena, no modo como os americanos buscam o ouro. E a asfixiante pressa com que trabalham – o vício peculiar ao Novo Mundo – já contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espalhando uma singular ausência de espírito. As pessoas já se envergonham do descanso. A reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa. Vivem como alguém que a todo instante poderia ‘perder algo’. ‘Melhor fazer qualquer coisa do que nada’. Esse princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior”.

domingo, 9 de julho de 2017

Arquivo para download: O caráter vulgar da linguagem segundo Nietzsche, por Márcio José Silveira Lima

O presente artigo analisa a concepção de Nietzsche sobre a linguagem, levando em consideração algumas obras iniciais e algumas finais, procurando compreender as mudanças que o filósofo tem da questão. Enquanto nas primeiras obras Nietzsche ainda sustenta uma visão positiva da metafísica e do lugar que a linguagem nela ocupa, no período tardio as mesmas razões que antes assumiam um aspecto positivo passam a ser alvo da crítica. Se na metafísica de artista das primeiras obras o caráter genérico da linguagem com seu rompimento com o princípio de individuação é visto de forma positiva, nas obras tardias a linguagem será criticada porque suprime o que há de individual, revelando apenas o aspecto vulgar da vida coletiva, ou seja, traduz apenas o que há de comum entre os homens.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Arquivo para download: A superação da dualidade cultura/biologia na filosofia de Nietzsche, por Wilson Antonio Frezzatti Jr.

Nietzsche considera-se o primeiro pensador a abordar o problema da cultura ou, como ele a entende, da elevação do homem. De qualquer modo, encontramos em sua filosofia duas perspectivas acerca desse problema: uma que podemos denominar de “fisiológica” ou “biológica” e outra, de “cultural”. Na primeira, o homem é compreendido enquanto relações entre impulsos ou quanta de potência. Na segunda, o filósofo alemão considera que aspectos culturais e a educação são responsáveis pela elevação ou decadência do homem. Se considerarmos apenas uma dessas perspectivas, deveríamos postular a presença de um determinismo biológico ou cultural no pensamento nietzschiano. Entretanto, esse não é o caso, pois os estudos que Nietzsche faz da cultura e das configurações de impulsos ou da “fisiologia” não ocorrem isolados um do outro, pois fazem parte de uma mesma reflexão filosófica. Ao considerar que o corpo e a cultura sofrem os mesmos processos por serem resultado de uma hierarquia de impulsos em luta entre si por mais potência, o filósofo alemão dissolve os limites entre cultura e biologia.