sexta-feira, 23 de março de 2018

Na Web: A genealogia dos preconceitos, de Oswaldo Giacoia Junior

Esse gosto pela intervenção polêmica no debate cultural, combinado ao virtuosismo estilístico sedutor, que recorre ao "pathos" poético, à paródia, à sátira, aos aforismos cortantes, fornece a atmosfera própria para a geração de mal-entendidos, pois dá a impressão superficial do entendimento fácil. A irreverência, sobretudo, é uma espécie de marca registrada de Nietzsche; ela se expressa em seu chamamento à transvaloração de todos os valores. Daqui também resulta uma mistura curiosa de atração e repulsa. Campeão do politicamente "incorreto", Nietzsche não hesitava em afrontar as convicções mais graníticas. Especialmente as "idéias modernas" de que mais nos orgulhamos. Esse delito não pode ficar sem castigo.

A crítica de Nietzsche visava a denunciar -muitas vezes por meio do exagero caricatural -uma interpretação tacanha do conceito de igualdade, como se este implicasse nivelamento e uniformização, supressão de distâncias e diferenças. Num dos casos, a ironia se dirige a uma espécie de diluição e perda irreversível do feminino; no outro, à hipocrisia latente na moderna exaltação da dignidade do trabalho, quando este é realizado em condições degradantes de repetição mecânica, impessoalidade e alienação, em que o discurso da igualdade dissimula a exploração brutal, a reificação absoluta do trabalhador. Constata-se, pois, a que ponto alcança a extensão do preconceito. Tanto mais violento, quanto mais duros os golpes que Nietzsche vibrou em nossa entranhada má consciência. Com sua impiedosa crítica da moral, ele pretendia trazer à luz os interesses, os jogos de poder e dominação, os investimentos de desejo, a idiossincrasia e estupidez transfigurados em nossos valores mais sublimes. Assim fazendo, revolvia as mais dolorosas e bem protegidas feridas narcísicas da alma moderna, desmascarando a impostura travestida em ideal. 

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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Arquivo para download: Educação (bildung) enquanto verniz: crítica ao Estado e psicofisiologia, por Wilson Antonio Frezzatti Júnior

Ao criticar a Bildung alemã, no sentido de formação ou educação, o filósofo alemão propõe uma nova formação. Nietzsche sempre foi um crítico feroz de sua época, considerada decadente e medíocre, incapaz de produzir uma grande cultura. Nesse contexto, a única coisa que a educação (Erziehung) e a formação (Bildung) podem fazer é encobrir – e não erradicar – a verdadeira compleição do indivíduo, ou seja, enganar “acerca da plebe herdada no corpo e na alma”. As críticas que Nietzsche faz à formação e à cultura alemãs não o impedem de propor ações para uma educação efetiva. O fragmento póstumo 9 outono 1887, intitulado “Os fortes do amanhã”, propõe o uso de certos comportamentos para elevar o homem: não devemos depender do acaso para a produção do homem forte, mas devemos produzi-lo através da educação. Uma educação que pense no futuro e não no presente: “A mediocridade crescente do ser humano é precisamente a força que nos impele a pensar na seleção [Züchtung] de uma raça [Rasse] mais forte: que encontraria seu excedente justamente em tudo aquilo que a espécie medíocre se enfraqueceria (vontade, responsabilidade, segurança de si, capacidade de estabelecer alvos para si)” (Fragmento póstumo 9 outono 1887). Os meios utilizados para isso são: isolamento, exercício de valores inversos ao da mediocridade, pathos da distância. Os costumes de uma cultura elevada devem ser opostos ao da cultura vigente decadente.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Arquivo para download: Os engajamentos políticos de Gilles Deleuze, por François Dosse

Por trás da obra filosófica de Gilles Deleuze, voltada notadamente à construção de conceitos, percebe-se sua propensão à defesa de causas políticas, pontuais e concretas. A partir de maio de 1968, ele participa de movimentos sociais (GIP) e de debates políticos e intelectuais que animaram a década de 1970. Seus escritos filosóficos atestam seu espírito ”rebelde” e sua aversão a toda forma de poder e de opressão.

domingo, 1 de outubro de 2017

Arquivo para download: Micropolítica do fascismo, por Félix Guattari

O que assegura a passagem das grandes entidades fascistas clássicas à molecularização do fascismo a que assistimos hoje? Uma simples repressão maciça, global, cega não é mais suficiente. O capitalismo é obrigado a construir e impor seus próprios modelos de desejo, e é essencial para sua sobrevivência que consiga fazer com que as massas que ele explora os interiorizem. Ao lado do fascismo dos campos de concentração - que continuam a existir em inúmeros países -, desenvolvem-se novas formas de fascismo molecular. Por toda a parte, a máquina totalitária experimenta estruturas que melhor se adaptem à situação: isto é, mais adequadas para captar o desejo e colocá-lo a serviço da economia do lucro. Dever-se-ia, portanto, renunciar definitivamente a fórmulas demasiado simplistas do gênero: "o fascismo não passará". Ele não só já passou, como passa sem parar. Passa através da mais fina malha; ele está em constante evolução; parece vir de fora, mas encontra sua energia no coração do desejo de cada um de nós. Em situações aparentemente sem problemas, catástrofes podem aparecer de um dia para o outro. O fascismo, assim como o desejo, está espalhado por toda parte, em peças descartáveis, no conjunto do campo social; ele toma forma, num lugar ou noutro, em função das relações de força. Pode-se dizer dele, ao mesmo tempo, que é superpotente e de uma fraqueza irrisória. Em última análise, tudo depende do talento dos grupos humanos em se tornarem sujeitos da História, isto é, em agenciar, em todos os níveis, as forças materiais e sociais que se abrem para um desejo de viver e mudar o mundo. 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Arquivo para download: Trechos selecionados da aula "Anti-Édipo e outras reflexões", por Gilles Deleuze

O presente texto corresponde à primeira parte de uma aula que versa sobre os principais temas encontrados n’O anti-Édipo, de Deleuze e Guattari. O tom adotado por Deleuze é coloquial, e as intervenções, por vezes, enfáticas. O conteúdo destas não é sempre discernível, fato que não compromete em nada a compreensão dos problemas colocados, e nem a atmosfera de tais momentos. Desde o início, pela distinção dos grandes tipos de interpretação da psicose, somos apresentados à célebre concepção de três linhas abstratas (de naturezas bastante distintas); tema que percorre toda a Esquizoanálise. Há a homenagem a Karl Jaspers, e a identificação de uma vertente predecessora. Há os exemplos literários, que fomentam a tentativa de resgate da dignidade ao delírio, e àqueles que com ele trava um embate. Há a afirmação de sua potência (“delira-se o mundo”), bem como as críticas à psicanálise, consequências desses posicionamentos.

sábado, 2 de setembro de 2017

Arquivo para download: O vocabulário de Deleuze, por François Zourabichvili

Introdução.................................................................................................................... 3
Verbetes .................................................................................................................. 6
Acontecimento [événement] ............................................................................... 6
Agenciamento [agencement]............................................................................... 8
Aion[Aiôn]............................................................................................................... 11
Complicação [complication] .............................................................................. 13
Corpo sem órgãos (CsO) [corps sans organes (CsO)] ........................................ 14
Corte fluxo (ou síntese passiva, ou contemplação)
[coupure flux (ou synthèse passive, ou contemplation)]......................................16
Cristal de tempo (ou de inconsciente)
[cristal de temps (ou d'inconscient)]...................................................................17
Desterritorialização (e território)
[déterritorialisatioin (et territoire)] ..................................................................... 22
Devir [devenir] ................................................................................................. 24
Distribuição nômade (ou espaço liso)
[distribtttion nomade (ou espace lisse)] ............................................................ 26
Empirismo transcendental [empirisme transcendental] .......................................27
Linha de fuga (e menor-maior)
[ligue de fuite (et mineur/majeur)] .................................................................... 29
Máquina de guerra [machine de guerre] ........................................................... 33
Máquinas desejantes [machines désirantes]...................................................... 35
Multiplicidades [multiplicités] ......................................................................... 37
Plano de imanência (e caos)
[plan d'immanence (et chaos)] ...................................................................... 39
Problema [problème] ..................................................................................... 47
Ritornelo (diferença e repetição)
[ritournelle (différence et répétition)] ............................................................. 50
Rizoma [rhizome] ......................................................................................... 51
Singularidades pré-individuais
[singidarités pré-individtcelles] ..................................................................... 53
Síntese disjuntiva (ou disjunção inclusa)
[synthèse disjonctive (ou disjonction incluse)] ............................................. 55
Univocidade do ser [Univocité de l'être] ............. ........................................... 57
Vida (ou vitalidade) não-orgânica
[vie (ou vitalité) non-organique] .................................................................. 59
Virtual [virtuel] ............................................................................................. 62

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Arquivo para download: Deleuze & Guattari: linguagem e devir, por Felipe Bó Huthmacher

Este é o capítulo 3 da dissertação "A linguagem entre o devir e a alienação".

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terça-feira, 25 de julho de 2017

Arquivo para download: Breves notas sobre a crítica nietzschiana da consciência e da linguagem, por Tereza Cristina B. Calomeni

Afastado da linguagem redutora e simplificadora da metafísica e da ciência – linguagem animada pela “vontade de verdade a todo custo” porque comprometida com uma determinada concepção de ser e de verdade e, portanto, com uma determinada concepção de filosofia –, Nietzsche aposta na possibilidade de construção de outro tipo de linguagem, uma linguagem que, próxima da arte e liberta das amarras do compromisso com a verdade ou o ser em si, seja capaz de, ao menos, tentar, por outro caminho, exprimir, por excesso, o incomum, o singular, o próprio. Não por acaso, a crítica da linguagem é um dos mais relevantes elementos da crítica da tradição metafísica e da ciência, das ideias de ser e de verdade. Não por acaso, no texto inacabado de 1873, Nietzsche reconhece a dimensão metafórica e figurativa da palavra – o valor estético da linguagem. Não por acaso, o próprio Nietzsche inventa nova linguagem, bem distinta da linguagem metafísica e científica, e faz seu estilo explodir, intenso e exuberante, em metáforas, parábolas, metonímias, paródias, aforismos, ditirambos, como a suspender a forma tradicional de pensamento e de expressão, como a procurar, incansável, pela elegante união entre palavra e imagem. Tributário de nova forma de conceber a filosofia, o conhecimento e a verdade, o uso artístico da linguagem é, para Nietzsche, o mais apto ao ensaio de expressão do próprio, do singular, do incomum.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Na Web: Ansiedade sem aplicativo, por Oswaldo Giacoia Júnior

O ritmo da modernidade é marcado pela intensificação da agitação em escala global, do ativismo e do falatório, característicos do estilo de vida em sociedades tecnologicamente desenvolvidas. Nossa cadência é determinada pela velocidade operante nos circuitos informativos e comunicacionais nos quais estamos enredados. Como disse o filósofo Adauto Novaes, somos uma civilização de falastrões, que se obstina em Facebooks, celulares, conversas virtuais, tuítes (escritos na cadência da fala; ao contrário de Macunaíma, já não temos mais que aprender o português escrito e o português falado). Nunca se falou e escreveu tanto, multiplicando-se a injunção à bavardage pelos meios e canais mais diversos, acelerando vertiginosamente a temporalidade e proliferando espaços imateriais de fala e escrita conectados em redes sociais de amplíssimo alcance. O WhatsApp, em especial, tornou-se mania, uma irresistível solicitação que nos mantém permanentemente online, fazendo desaparecer nossas horas de estudo e contemplação, alterando nossas noções de urgência e emergência.

O filósofo Friedrich Nietzsche ajuda-nos a refletir sobre essa compulsão à velocidade comunicacional e ao formigamento dos discursos vazios em dimensão planetária. Para uma percepção refinada e extemporânea como a de Nietzsche, essa curiosidade generalizada, esse anseio pela novidade, que torna tudo imperiosamente urgente, é um sintoma de corrupção do gosto e embotamento de corações e mentes, indício de uma ausência de pensamento, em que só há percepção para o elemento quantitativo, para a maximização de performances, numa alucinada e constante busca de satisfações imediatas. Em seu tempo, Nietzsche já discernira esse traço como um ingrediente do american way of life: “Há uma selvageria pele vermelha, própria do sangue indígena, no modo como os americanos buscam o ouro. E a asfixiante pressa com que trabalham – o vício peculiar ao Novo Mundo – já contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espalhando uma singular ausência de espírito. As pessoas já se envergonham do descanso. A reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa. Vivem como alguém que a todo instante poderia ‘perder algo’. ‘Melhor fazer qualquer coisa do que nada’. Esse princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior”.

domingo, 9 de julho de 2017

Arquivo para download: O caráter vulgar da linguagem segundo Nietzsche, por Márcio José Silveira Lima

O presente artigo analisa a concepção de Nietzsche sobre a linguagem, levando em consideração algumas obras iniciais e algumas finais, procurando compreender as mudanças que o filósofo tem da questão. Enquanto nas primeiras obras Nietzsche ainda sustenta uma visão positiva da metafísica e do lugar que a linguagem nela ocupa, no período tardio as mesmas razões que antes assumiam um aspecto positivo passam a ser alvo da crítica. Se na metafísica de artista das primeiras obras o caráter genérico da linguagem com seu rompimento com o princípio de individuação é visto de forma positiva, nas obras tardias a linguagem será criticada porque suprime o que há de individual, revelando apenas o aspecto vulgar da vida coletiva, ou seja, traduz apenas o que há de comum entre os homens.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Arquivo para download: A superação da dualidade cultura/biologia na filosofia de Nietzsche, por Wilson Antonio Frezzatti Jr.

Nietzsche considera-se o primeiro pensador a abordar o problema da cultura ou, como ele a entende, da elevação do homem. De qualquer modo, encontramos em sua filosofia duas perspectivas acerca desse problema: uma que podemos denominar de “fisiológica” ou “biológica” e outra, de “cultural”. Na primeira, o homem é compreendido enquanto relações entre impulsos ou quanta de potência. Na segunda, o filósofo alemão considera que aspectos culturais e a educação são responsáveis pela elevação ou decadência do homem. Se considerarmos apenas uma dessas perspectivas, deveríamos postular a presença de um determinismo biológico ou cultural no pensamento nietzschiano. Entretanto, esse não é o caso, pois os estudos que Nietzsche faz da cultura e das configurações de impulsos ou da “fisiologia” não ocorrem isolados um do outro, pois fazem parte de uma mesma reflexão filosófica. Ao considerar que o corpo e a cultura sofrem os mesmos processos por serem resultado de uma hierarquia de impulsos em luta entre si por mais potência, o filósofo alemão dissolve os limites entre cultura e biologia.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Arquivo para download: Carta ao pai, de Franz Kafka

Todas aquelas idéias na aparência independentes de você estavam desde o início gravadas pelo seu juízo desfavorável: suportar isso até a exposição completa e duradoura do pensamento era quase impossível. Não falo aqui de pensamentos elevados de qualquer natureza, mas de todos os pequenos empreendimentos da infância. Bastava estar feliz com alguma coisa, ficar com a alma plena, chegar em casa e expressá-la, para que a resposta fosse um suspiro irônico, um meneio de cabeça, o bater do dedo sobre a mesa: "Já vi coisa melhor", ou "Para mim você vem contar isso?", ou "Minha cabeça não é tão fresca quanto a sua", ou "Dá para comprar alguma coisa com isso?", ou "Mas que acontecimento!". Naturalmente não se podia exigir de você entusiasmo por qualquer ninharia de criança, vivendo como vivia, cheio de preocupação e trabalho pesado. Nem era disso que se tratava. Pelo contrário, tratava-se do fato de que você precisava causar essas decepções ao filho, sempre e por princípio, graças ao seu ser contraditório.