quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Arquivo para download: Verdade e mentira no sentido extramoral, de Friedrich Nietzsche

Verdade e Mentira no Sentido Extramoral [Über Wahrheit und Lüge im aussermoralischem Sinn] é um escrito póstumo do jovem Nietzsche do ano de 1873, um texto que ele ditou a seu amigo Carl von Gersdorff, num momento em que começava a distanciar-se intelectualmente de Wagner e também de Schopenhauer. Antes, ele havia escrito um prólogo intitulado Sobre o pathos da verdade, em que já anunciava uma ruptura com sua orientação anterior; agora, o lado cético do seu pensamento, certamente herdado principalmente do Kant da Crítica da Razão Pura, era mostrado mais às claras. De qualquer maneira, o que estava em questão era o tema da verdade, um problema que Nietzsche de fato jamais abandonará, envolvendo ao mesmo tempo a ciência e a arte numa disputa em que ele chama atenção para o caráter desesperador da verdade da ciência e para a natureza redentora da arte: a verdade aniquila a vida e a tarefa da arte é salvá-la. Nietzsche é então e já o filósofo trágico que se opõe à idolatria da verdade e ao otimismo vazio dos modernos.


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sábado, 14 de janeiro de 2012

Arquivo para download: Conhecimento e afetividade em Spinoza, por Pascal Sévérac e "Fazer do conhecimento o mais potente dos afetos", por Olivier Ponton

Conhecimento e afetividade em Spinoza
Pascal Sévérac

A filosofia spinozista, em simultâneo, se propõe tomar a afetividade humana como objeto de conhecimento racional e, sobretudo, não visa o aperfeiçoamento ético senão por meio da produção de afetos liberadores. O projeto spinozista nos propõe uma ética do conhecimento que certamente se distingue de uma moral da obediência; mas não se trata nunca de conhecer por conhecer, trata-se de conhecer para ser afetado, e ser afetado de tal forma que possamos viver felizes. 

“Fazer do conhecimento o mais potente dos afetos”
Olivier Ponton

Em 30 de julho de 1881, Nietzsche envia uma carta entusiasmada a seu amigo Overbeck, na qual admite que mal conhecia Spinoza, mas que acabava de descobrir nele um maravilhoso precursor e afirma que a “tendência geral” de Spinoza é idêntica à sua – essa tendência pode ser formulada assim: “fazer do conhecimento o mais potente dos afetos”31. Esta fórmula tem um estatuto particular, uma vez que Nietzsche se expressa com palavras de Spinoza (ou melhor, com as palavras de um livro de Kuno Fischer sobre Spinoza). Nos textos desse período, Nietzsche raramente relaciona o conhecimento a um afeto, pois o relaciona de preferência a um “impulso”ou a uma “paixão”32. Nosso propósito não é aqui, no entanto, compreender o sentido que essa fórmula pode tomar na filosofia de Spinoza, mas reconstituir o sentido que tem na filosofia de Nietzsche. Fixamos, portanto, dois objetivos: 1) compreender essa fórmula nietzschiana no seu contexto original, isto é, na filosofia de Aurora e de A gaia ciência; 2) examinar em que esta tendência para “fazer do conhecimento o afeto mais potente” pode corresponder à “tendência geral” do pensamento de Nietzsche, nesse período.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vídeo: O conhecimento como o maior dos afetos (Um mundo onde conhecer é criar e afetar-se melhor), por André Martins


Um mundo onde conhecer é criar e afetar-se melhor – André Martins from cpfl cultura on Vimeo.

O conhecimento da realidade é o mais potente dos afetos, capaz de transformarmo-nos afetivamente assumindo o real com nunca fizemos antes. Com ele podemos conceber um mundo sem os alicerces do projeto moderno, através de uma transformação de nossos valores.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Arquivo para download: Notas sobre a individuação intensiva em Simondon e Deleuze, por Veronica Damasceno

As potências que encerram a vida remontam a um princípio de extrema importância para o pensamento, mas ainda pouco explorado por parte da filosofia contemporânea. Trata-se do princípio de individuação. Encontramos em Gilbert Simondon um estudo desse princípio e uma teoria profundamente original da individuação, capazes de nos lançar novos desafios e de promover novos modos de pensar esse problema. O princípio de individuação encontra eco no pensamento de Deleuze, que o aproxima de conceitos como: diferença, sujeito larvar ou embrionário e corpo sem órgãos. Todos esses conceitos, caros ao pensamento de Deleuze, aludem ao campo intensivo pré-individual. Pretendemos, nos limites dessas notas, introduzir o princípio de individuação de Simondon e algumas das ressonâncias que se produziram, a partir desse princípio, na filosofia de Deleuze.

Arquivo para download: O homem-árvore, de Antonin Artaud

(Carta a Pierre Loeb)

Antonin Artaud

O tempo em que o homem era uma árvore sem órgãos nem função,
mas de vontade
e árvore de vontade que anda,
voltará.
Existiu, e voltará.
Porque a grande mentira foi fazer do homem um organismo,
ingestão, assimilação,
incubação, excreção,
o que existia criou toda uma ordem de funções latentes e que escapam
ao domínio da vontade decisora,
a vontade que em cada instante decide de si;
porque assim era a árvore humana que anda,
uma vontade que decide a cada instante de si,
sem funções ocultas, subjacentes, que o inconsciente rege.
Do que somos e queremos na verdade pouco resta,
um pó ínfimo sobrenada, e o resto, Pierre Loeb, o que é?
Um organismo de engolir, pesado na sua carne,
e que defeca e em cujo campo,
como um irisado distante,
um arco-íris de reconciliação com deus,
sobrenadam,
nadam os átomos perdidos,
as idéias, acidentes e acasos no total de um corpo inteiro.
Quem foi Baudelaire?
Quem foram Edgar Poe, Nietzsche, Gérard de Nerval?
Corpos que comeram, digeriram, dormiram,
ressonaram uma vez por noite,
cagaram entre 25 e 30 000 vezes,
e em face de 30 ou 40 000 refeições,
40 mil sonos, 40 mil roncos,
40 mil bocas acres e azedas ao despertar,
tem cada qual de apresentar 50 poemas,
o que realmente não é de mais,
e o equilíbrio entre a produção mágica e a produção automática
está muito longe de ser mantido,
está todo ele desfeito,
mas a realidade humana, Pierre Loeb, não é isto. [...]

domingo, 15 de maio de 2011

Arquivo para download: O ato de criação, transcrição de palestra realizada em 1987 por Gilles Deleuze

Eu gostaria também de formular algumas perguntas. Formulá-las a vocês e formulá-las a mim mesmo. Seria algo como: o que exatamente vocês fazem, vocês, homens do cinema? E eu, o que exatamente eu faço, quando faço ou espero fazer filosofia?

Poderia formular a pergunta de outra maneira: o que é ter uma idéia em cinema? Se fazemos ou queremos fazer cinema, o que significa ter uma idéia? O que acontece quando dizemos: “Ei, tive uma idéia”? Porque, de um lado, todo mundo sabe muito bem que ter uma idéia é algo que acontece raramente, é uma espécie de festa, pouco corrente. E depois, de outro lado, ter uma idéia não é algo genérico. Não temos uma idéia em geral. Uma idéia, assim como aquele que tem a idéia, já está destinada a este ou àquele domínio. 

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Arquivo para download: Ecce Homo, de Friedrich Nietzsche

Tradução: Artur Morão

PREFÁCIO
1
Na previsão de que em breve terei de surgir perante a humanidade com a mais difícil exigência que se lhe fez, parece-me indispensável dizer quem eu sou. No fundo, todos o deviam saber: não deixei, com efeito, de dar testemunho de mim. Mas a incongruência entre a grandeza da minha tarefa e a pequenez dos meus contemporâneos expressou-se no facto de que não me ouviram, nem também me viram. Vivo do meu próprio crédito, ou será talvez apenas um preconceito supor que vivo?... Basta-me dirigir a palavra a qualquer pessoa «culta» que venha no Verão à Alta Engadine para me convencer de que não vivo... Nestas circunstâncias, há um dever contra o qual, no fundo, se revoltam os meus hábitos, e mais ainda o orgulho dos meus instintos, isto é, o dever de clamar: Escutai-me! Pois, sou esteassim. Sobretudo, não me confundam com outro!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Arquivo para download: O Jesus de Nietzsche - a ambigüidade de uma polêmica, por Alexandre Marques Cabral

O presente artigo tem como intuito primordial explicitar a ambigüidade constitutiva da abordagem nietzschiana de Jesus de Nazaré, que se refere ao fato de Nietzsche ter considerado Jesus como um tipo vital contrário ao cristianismo e, no entanto, ter considerado os dois como sintomas da décadence. Para entender esta aparente contradição, é mister que se defina o que Nietzsche entende por décadence e como tal conceito se manifesta pluriformemente em sua análise. Neste sentido, a décadence jesuânica refere-se a um tipo em declínio, que não faz do ressentimento um meio de conversão da cultura ao seu tipo vital em dissolução, como acontece com o cristianismo. Por isso, Jesus aparece como paradigma de um tipo de décadence que possibilita a gênese de uma real metamorfose tipológica, condição de possibilidade da superação do tipo fisiológico degenerado, que se tornou normativo no Ocidente desde Sócrates, e a aparição do além-do-homem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Arquivo para download: A aprendizagem da atenção na cognição inventiva, por Virgínia Kastrup

O artigo aborda o problema da aprendizagem da atenção, tomando como base a noção de cognição como invenção (Kastrup, 1999). Para o estudo da atenção examina trabalhos onde, no contexto das ciências cognitivas contemporâneas, esta é concebida como fundo de variação da cognição, ultrapassando sua manifestação como ato de prestar atenção. Analisa a relação entre atenção e aprendizagem na prática do devirconsciente proposta por Depraz, Varela e Vermersch (2003), onde se destaca a suspensão da atitude natural, a atenção a si e uma mudança na qualidade da atenção, que passa de um ato de busca de informações para um ato de encontro com a dimensão de virtualidade do si. A aprendizagem da atenção é examinada em sua lógica circular, temporal e coletiva. As diferenças entre distração e dispersão, bem como entre concentração e focalização são discutidas no que diz respeito a seu papel na cognição inventiva.

sábado, 25 de setembro de 2010

Arquivo para download: Bergson e a natureza temporal da vida psíquica, de Regina Rossetti

Para Bergson, a vida interior é de natureza temporal e não espacial. Na psique, a multiplicidade qualitativa dos estados psicológicos se modifica o tempo todo numa sucessão contínua e solidária; se algo parece solidificar-se e fragmentar-se é porque se representa, ilusoriamente, a consciência como se existisse num tempo homogêneo e espacial. Na raiz do problema está a confusão que se faz entre tempo e espaço quando não se percebe que os estados psicológicos e toda vida psíquica são de natureza exclusivamente temporal. A partir dessa confusão, tem-se a representação de um eu superficial e de uma multiplicidade quantitativa dos estados psicológicos como se fossem de natureza física, como o fez a psicofísica, porque se concebe a vida psíquica existindo num ilusório tempo espacial.

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sábado, 18 de setembro de 2010

Arquivo para download: Clínica, indeterminação e biopoder, por Auterives Maciel

No mundo atual, vivemos, de maneira cada vez mais acentuada, a impossibilidade de fazer agenciamentos desejantes. O tempo indispensável para que um desejo se efetue, tempo esse inseparável das experimentações e dos agenciamentos, encontra-se cada vez mais anulado, ou melhor, controlado pelos mecanismos de poder que se exercem não apenas sobre a nossa subjetividade, mas também sobre a nossa própria condição vivente. É bem verdade que o controle do tempo sempre foi uma das preocupações do poder. Segundo Foucault (1979), nas sociedades disciplinares o poder não só ordenava, como também compunha com o tempo a ação do indivíduo. Porém controlar o tempo, impingir um ritmo à subjetividade, eliminar o intervalo temporal existente entre o momento de perceber e o momento de agir, subtraindo do indivíduo a indeterminação indispensável para que ele possa agir criativamente, é um traço acentuado da nossa sociedade. Seguindo Foucault, podemos dizer que o poder que se exerce com tal intuito tem como objeto a vida, o controle do tempo da vida, da indeterminação que acompanha o viver. Ao desenvolver a tese foucaultiana, Gilles Deleuze (1990) denominou sociedade de controle o tipo de ordenamento político-social em que o poder toma a forma de um biopoder, incidindo diretamente sobre as potencialidades da vida – como a sexualidade, a geração de filhos, a saúde etc. Exatamente as dimensões que até então eram consideradas íntimas, aquelas que se referiam à decisão privada dos indivíduos, têm agora o seu campo de possíveis explicitado e controlado, desaparecendo a distinção entre vida pública e vida privada, e mesmo entre a vida subjetiva e o simples viver.

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sábado, 28 de agosto de 2010

Arquivo para download: Matéria e memória, de Henri Bergson



Este livro afirma a realidade do espírito, a realidade da matéria, e procura determinar a relação entre eles sobre um exemplo preciso, o da memória. Portanto é claramente dualista. Mas, por outro lado, considera corpo e espírito de tal maneira que espera atenuar muito, quando não suprimir, as dificuldades teóricas que o dualismo sempre provocou e que fazem que, sugerido pela consciência imediata, adotado pelo senso comum, ele seja pouco estimado pelos filósofos.

Arquivo para download: As duas fontes da moral e da religião, de Henri Bergson

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Arquivo para download: Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, de Henri Bergson


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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Arquivo para download: Ressentimento: veneno do espírito, por Spartaco Vizzoto

Imaginemos um indivíduo de poucos recursos quanto à força física, que seja agredido por um outro incomparavelmente mais forte. Sua reação imediata, instantânea, consistirá em um impulso de contra-ataque, que no entanto será refreado e recalcado em virtude de uma emoção – o medo que superou a ira inicial. Esta, porém, não desaparece. A contra-reação é adiada para um momento e situação mais favoráveis, nascendo assim um novo sentimento, o de vingança, caracterizado pelo deslocamento no tempo e no espaço da satisfação de um impulso agressivo. Essa energia psíquica em estado de latência pode libertar-se de várias maneiras: pela realização da vingança, através da agressão física e moral (insulto, calúnia, maledicência) ou pelo desprezo (se o agredido se considera de categoria individual ou social muito superior à de agressor). Na impossibilidade de tomar qualquer dessas atitudes, por debilidade física ou moral ou por imperativos circunstanciais insuperáveis, surge um angustioso sentimento de impotência, que imprime à personalidade características especiais – ela está envenenada pelo ressentimento, que a corrói nas suas funções mais nobres, degradando-a aos níveis morais mais inferiores. A intensidade desse fenômeno é particularmente grande quando ligado a um sentimento místico de direito e de dever. É o caso de um selvagem a quem se negou o “direito” a uma vingança de sangue e que se consumiu até morrer.

O ressentido sente e ressente milhares de vezes a mesma sensação de fraqueza, de frustração de seus desejos de represália. Traduz em todos seus atos e atitudes a ação maléfica dessa paixão: torna-se azedo, amargurado, seus juízes são pérfidos. É um detrator sistemático de todos os valores individuais ou sociais, numa tentativa ilusória de aliviar a sua tensão emotiva. É incapaz de um gesto de gratidão, pois transforma os favores que lhe fazem em material para seu ressentimento. “Senti desde muito cedo a penosa escravidão de agradecimento”, escreveu Robespierre, um grande ressentido.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Na Web: Aula sobre o aforismo 354 de "A gaia ciência", por Oswaldo Giacoia Júnior

"Vale dizer, como a crítica nietzschiana da ideologia, que é necessariamente uma variante da sua crítica da consciência, ela é praticamente única em relação a tradição do iluminismo, na medida em que, para ela, este primado da consciência é simplesmente uma das figuras da ilusão. Isto nós vamos ver no texto, que nós vamos examinar ainda hoje. Ou seja, qual é a verdadeira natureza da crítica da consciência, em Nietzsche, e em que medida, para ele, toda e qualquer crítica da ideologia para ser conseqüente consigo mesmo, tem que partir do dado de que a consciência não é nem potencialmente onisciente, nem potencialmente onipotente. E mais ainda, de que a ilusão da onipotência e da onisciência da consciência é o perigo, precisamente porque é, como ilusão, inconsciente de si mesmo. Ou seja, a crítica nietzschiana da consciência desemboca na denúncia do caráter necessariamente superficial da consciência".