quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Arquivo para download: Carta sobre a felicidade (a Meneceu), de Epicuro

Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz. Desse modo, a filosofia é útil tanto ao jovem quanto ao velho: para quem está envelhecendo sentir-se rejuvenescer através da grata recordação das coisas que já se foram, e para o jovem poder envelhecer sem sentir medo das coisas que estão por vir; é necessário, portanto, cuidar das coisas que trazem a felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la. Pratica e cultiva então aqueles ensinamentos que sempre te transmiti, na certeza de que eles constituem os elementos fundamentais para uma vida feliz.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Na Web: A subjetivação subversiva, entrevista com Félix Guattari

Entrevista com Félix Guattari concedida a Antônio Lancetti e Maria Rita Kehl, em 1990.

"A força dos movimentos racista-reacionários, como a Frente Nacional, na França, ou o Pamiat, na Rússia, é que eles catalisam uma autonomia subjetiva, ao sair da consumação passiva da media. Há uma potência libidinal nesses movimentos reacionários. Nesse sentido, é que não dá para considerá-los movimentos totalitários, simplesmente. Essa característica é que lhes dá capacidade de ganhar terreno sobre os movimentos operários tradicionais. Então, de duas, uma: ou os movimentos progressistas, os movimentos de liberação contemporâneos perderão terreno - incapazes de apreender os novos dados da subjetivação coletiva -, ou adquirirão meios de fazer com que essa subjetivação se dê de maneira verdadeiramente progressista, desenvolvendo referências de liberação, criando novos espaços de liberdade, propondo novos horizontes à subjetivação, fora dos marcos tradicionais e conservadores, e, em particular, reinventando os modos de se fazer política, porque essa temática não é só ideológica e não seria suficiente que o PT, por exemplo, levantasse a bandeira da revolução molecular. É preciso que o PT comece a fazer a sua própria revolução molecular, a sua própria análise institucional - especialmente num terreno que me parece evidente, que é o do papel das mulheres na organização -, o que representa descentrar as preocupações políticas tradicionais."

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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Arquivo para download: De Bactriana e as margens de Urmi à montanha e o ocaso: como introdução à leitura de Assim falou Zaratustra", por Mónica B. Cragnolini

"'Assim Falou Zaratustra é um livro para todos e para ninguém', como indica o seu subtítulo. Porque certamente qualquer um pode lê-lo, na medida em que, frente ao caráter técnico e dificultoso dos tradicionais livros de filosofia, este se apresenta como um livro de fácil leitura. Por isso, 'para todos': aproxima-te e leia. Contudo: quem pode suportá-lo? Como é possível lê-lo e permanecer igual, sem transformar-se?

[...] Não se pode ler 'Assim Falou Zaratustra' e permanecer sendo o mesmo, porque esse livro, como todas as obras de Nietzsche, é uma provocação, uma exigência, uma explosão. O Zaratustra exige 'decisões'. Isso não tem nada a ver com aquele lema que desde Sócrates se considera próprio da 'verdadeira' vida filosófica: a vida-práxis, 'viver como se pensa'. Não, não se trata disso, porque aqui não se tenta viver como pensa, mas, ao contrário, se pensa como se vive, o pensamento é vida e a vida é pensamento, assim como a escritura não é algo diferente da vida, mas é outra configuração da mesma. Não se trata aqui de harmonia de esferas separadas, ao contrário, é a 'instalação' na imanência.

Exigir 'decisões': talvez seja este um dos aspectos principais do Zaratustra, a partir do ponto de vista do seu caráter de obra transformadora. Porque é certo que não se pode lê-lo sem experimentar transformações, sem sentir a necessidade de 'revisar' atitudes, valores, hábitos, posições, seja para criticá-las, seja para afirmá-las. Por meio dele, a provocação: a reprovação ou adesão, mas quase impossível é a indiferença. Porque não se pode permanecer indiferente quando se questionam os valores que constituem a própria cultura e a forma de ser, não se pode permanecer indiferente quando ao filósofo o chama de 'híbrido de planta e fantasma', ao homem da ciência, 'consciencioso do espírito', ao homem religioso, 'tuberculoso da alma'. Não se pode permanecer indiferente porque o texto aponta como uma arma, o texto ataca e busca ferir, o texto é um instrumento de combate, quer destruir e aniquilar. Há algo para se destruir: a decadência, a enfermidade. Há inimigos, a escritura é também uma estratégia de combate. Não existe aqui nada da 'assepsia' filosófica, nem da abstração e palidez Konisberguense. À Elizabeth, Nietzsche escreve que o Zaratustra não é um presente que se tenha que agradecer festivamente: ali não existe nada para agradecer, ali deve haver dor da transformação, dor diante da agressão, ruptura com as formas de configurações enfermas, ânsias de saúde..."

domingo, 7 de agosto de 2016

Arquivo para download: Flutuações da atenção no processo de criação, por Virgínia Kastrup

Denominamos invenção ou criação não um processo psicológico especial, mas a potência que a cognição possui de diferir de si mesma (KASTRUP, 2007a). Constatamos que estudar a criação dentro de parâmetros científicos nem sempre é simples, pois não há uma teoria da criação. Como afirma Isabelle Stengers (1993) a idéia de uma teoria da invenção é uma contradição de termos. Por não ser submetida a leis gerais, a invenção também não está sujeita à previsibilidade. Henri Bergson (1930/2006) sublinha esse ponto quando, na ocasião em que ganha o prêmio Nobel, é perguntado por um jornalista sobre como seria a literatura do futuro. Bergson responde que se fosse possível sabê-lo, ele próprio a faria. Observamos que além de ser preciso abrir mão da intenção de encontrar leis gerais e de fazer previsões quanto a seus resultados futuros, há que se renunciar a explicar a criação pelo criador. Tal caminho não parece adequado, pois ao invés de fundamento, o sujeito deve ser entendido, ele mesmo, como efeito do processo de criação. O desafio é explicar a criação sem apelar para uma instância criadora. Muitas vezes se tem confundido criação com criatividade, o que é também um equívoco a ser evitado. A criatividade é somente uma pequena parte do processo de criação, que é bem mais amplo. A criatividade é apenas a criação de soluções originais para problemas dados, enquanto a criação envolve a invenção dos próprios problemas.

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domingo, 17 de julho de 2016

Arquivo para download: O misticismo de Henri Bergson, por Marcilene Aparecida Severino

A grande função do místico é contagiar os demais pelo seu agir moral. São eles os exemplos que a humanidade necessita para basear suas ações. Não se trata de um agir guiado pela razão como propôs Kant, mas um agir guiado pela emoção. Ao propor um modelo de ação moral, Bergson se opõe totalmente a Kant. De acordo com esse último filósofo, o exemplo jamais poderá ser o que nos dê o conceito de moralidade. Mas para Bergson, o agir moral dos grandes místicos pode e deve servir de exemplo. Os místicos possuem uma emoção criadora e por isso são geradores de novas idéias, aceitam novos desafios e nos chamam a atenção pela dedicação e amor à causa por eles defendida. Eles não ordenam, apenas convidam. Este convite se dá de forma a chamar nossa atenção por nosso estado de comodismo e descomprometimento perante as desmazelas do mundo. Mas este convite não se dá de forma uniforme. Todos os seres humanos podem ser impulsionados a ser exemplos porque todos nós possuímos essa emoção criadora. Porém somente em alguns que ela se manifesta plenamente.

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Arquivo para download: Henri Bergson, por J.M. Bochenski

Tradução de Antônio Pinto de Carvalho.
in A Filosofia Contemporânea Ocidental.
Herder, São Paulo, 1968
Fonte: www.consciencia.org

A atividade especulativa de BERGSON exerceu-se, sobretudo, em quatro obras que mostram claramente sua evolução espiritual. O Essai sur les données immédiates de Ia conscience (1889) contém a sua teoria do conhecimento; Matière et Mémoire (1896) sua psicologia, L’Évolution créatrice (1907) sua metafísica fundada na biologia especulativa, Les deux sources de la Morale et de la Religion (1932) sua ética e filosofia da religião. Todas estas obras tiveram êxito extraordinário, que se explica não só porque BERGSON expunha uma filosofia realmente nova e que correspondia às necessidades mais prementes da época, mas também porque a exprimia numa linguagem de rara beleza. Por esse motivo lhe foi atribuído, em 1927, o prêmio Nobel de literatura. A uma prodigiosa clareza, a uma artística matização das expressões e a uma impressionante potência de imaginação, alia ele extraordinária gravidade filosófica e uma acuidade dialética sem par. Além disso, suas obras apóiam-se em conhecimentos sólidos, adquiridos à custa de amplas e árduas pesquisas. Por tudo isto, BERGSON foi capaz de superar, a um tempo, o positivismo e o idealismo do século XIX. É um dos pioneiros do espírito novo de nosso tempo.

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sábado, 12 de março de 2016

Arquivo para download: O devir revolucionário e as criações políticas, por Gilles Deleuze

"As minorias e as maiorias não se distinguem pelo número. Uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. O que define a maioria é um modelo aceito: por exemplo, o europeu mediano, adulto, masculino, residente em cidades... Uma vez que uma minoria não tem um modelo, é um devir, um processo. Podemos dizer que a maioria é Ninguém. Todos, em um aspecto ou em outro, estão em um devir minoritário que leva — caso trilhado — a caminhos desconhecidos. Quando uma minoria cria modelos para si, é porque ela quer se tornar majoritária, e essa criação é sem dúvida inevitável, tendo em vista sua sobrevivência ou salvação (por exemplo, através da criação de um Estado, de um reconhecimento, da imposição de seus direitos). Mas seu poder vem daquilo que ela soube criar, e que entrará mais ou menos no modelo, sem dele depender. O povo é sempre uma minoria criativa e que assim permanece mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque não se dão no mesmo plano. Os maiores artistas (sem serem artistas populistas) se dirigem a um povo, e constatam que "falta o povo": Mallarmé, Rimbaud, Klee, Berg. No cinema, os Straub. O artista só pode se dirigir a um povo, ele precisa profundamente de seu envolvimento, ele não tem como criá-lo, ele não pode. A arte é que resiste: ela resiste à morte, à servidão, à fome, à vergonha. Mas o povo não pode se ocupar com a arte. Como então se cria um povo, em meio a que sofrimentos abomináveis? Quando um povo se cria, é através de seus próprios meios, mas de uma maneira que recupera alguma coisa da arte (Garel diz que o museu do Louvre, ele também, contém muito desse sofrimento abominável), ou então de maneira tal que a arte recupera o que a ele faltava. A utopia não é um bom conceito: há uma "fabulação" comum ao povo e à arte. Seria necessário retomar a noção bergsoniana de fabulação para dotá-la de um sentido político."

Arquivo para download: O sonho, por Henri Bergson

"No sono natural nossos sentidos não estão de modo algum fechados às impressões exteriores. Sem dúvida eles não têm mais a mesma precisão, mas, em compensação, reencontram muitas impressões “subjetivas” que passaram despercebidas durante a vigília, quando nos movíamos em um mundo exterior comum a todos os homens, e que reaparecem no sono, porque aí vivemos somente para nós mesmos. Não se pode nem mesmo dizer que a nossa percepção se estreita quando dormimos; antes, ela amplia, em certas direções pelo menos, seu campo de operação. É verdade que ela perde em tensão o que ganha em extensão. Ela traz quase somente o difuso e o confuso. Isto não significa que fabriquemos o sonho com menos  sensação real."

domingo, 20 de setembro de 2015

Arquivo para download: Vida e doutrina dos filósofos ilustres (Livro X, sobre Epicuro), de Diógenes Laércios

* Inclui as três cartas (a Heródoto, a Pítocles e a Meneceu) e as máximas principais.

Epicuro, filho de Neoclés e de Caristrate, ateniense do demo Gargetos, era de estirpe dos Fileídas, como diz Metrodoro em sua obra Da Nobreza de Nascimento. Outros autores, entre os quais Heráclides em sua Epítome de Sótion, afirmam que ele foi criado em Samos, após a colonização ateniense, e que aos dezoito anos veio para Atenas, quando Xenócrates ensinava na Academia e Aristóteles em Cálcis. Após a morte de Alexandre, o Macedônio, e a expulsão dos colonizadores atenienses de Samos por Pérdicas, Epicuro deixou Atenas para ir juntar-se a seu pai em Colofon. Lá ele permaneceu durante algum tempo e reuniu discípulos em torno de si, mas em seguida retornou a Atenas, no arcontado de Anaxícrates.

Até certa época dedicou-se à filosofia juntamente com outros mestres, porém depois adotou pontos de vista independentes, fundando a escola cujo nome deriva dele. O próprio Epicuro narra que teve o primeiro contato com a filosofia aos quatorze anos de idade. No primeiro livro de sua Vida de Epicuro, o epicurista Apolodoro afirma que Epicuro se voltou para a filosofia após haver repudiado os mestres-escolas porque não souberam explicar-lhe a significação de “caos” em Hesíodo3, Hermipos, todavia, diz que o próprio Epicuro foi mestre-escola, e que mais tarde a leitura das obras de Demócrito o levou a dedicar-se avidamente à filosofia.

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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Arquivo para download: Ninguém é deleuziano, por Suely Rolnik

É curioso como o texto de Deleuze pode parecer acessível e poderoso para alguns e tão obscuro e até delirante, para outros. O que tenho observado ao longo destes anos de trabalho com seu pensamento é que fazer ou não sentido, quando se trata de um texto de Deleuze, não depende de erudição filosófica, nem de qualquer posição epistemológica, metodológica ou mesmo ideológica, como pensam alguns, quando querem reduzir Deleuze ao papel de um mero pensador de maio de 68. Fazer ou não sentido, no caso de um texto de Deleuze e de outros autores como Nietzsche (um dos mais presentes na obra de Deleuze), depende muito mais da postura desde a qual o leitor exerce seu próprio pensamento.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Arquivo para download: O que é um dispositivo? por Gilles Deleuze

As diferentes linhas de um dispositivo repetem-se em dois grupos: linhas de estratificação ou de sedimentação, linhas de actualização ou de criatividade. A última consequência deste método engloba toda a obra de Foucault. Na maior parte dos seus livros, Foucault determina um arquivo preciso, com procedimentos históricos que são extremamente novos, sobre o grande hospital no século XVII, sobre a clínica no século XVIII, sobre a prisão no século XIX, sobre a subjetividade na Grécia Antiga, no cristianismo. Porque, por obstinado rigor, pela vontade de não misturar tudo, por confiança no leitor, Foucault não formula a outra metade. Formula-a explicitamente apenas nas entrevistas, contemporâneas de cada um dos grandes livros; o que sucede hoje em dia com a loucura, com a prisão, com a sexualidade? Que novos modos de subjectivação surgem hoje em dia, que nem são gregos nem cristãos? Esta última questão, principalmente, ocupa Foucault (nós que já não somos gregos e nem mesmo cristãos...). Se Foucault deu tanta importância às suas entrevistas até o fim da vida, em França e mais ainda no estrangeiro, não foi pelo gosto da entrevista, mas porque as linhas de actualização que traçava exigiam um outro modo de expressão diferente das linhas assimiláveis pelos grandes livros. As entrevistas são diagnósticos. Tal como em Nietzsche, cujas obras dificilmente se lêem sem lhes juntar-mos o Nachlass contemporâneo de cada uma. A obra completa de Foucault, tal como a concebem Defert e Ewald, não pode separa os livros que nos marcaram a todos das entrevistas que nos encaminham para um futuro, para um devir: os estratos e as actualidades. 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Na Web: Nietzsche em Sils Maria, por Mario Vargas Llosa

Tradução: Anna Capovilla

Quando Nietzsche veio pela primeira vez a Sils Maria, no verão de 1879, era uma ruína humana. Estava perdendo a vista a passos rápidos, era atormentado pelas enxaquecas, e as enfermidades o haviam obrigado a renunciar à cátedra na universidade de Basileia, onde lecionara por dez anos. Esta era então uma remota região alpina na alta Engadina, onde só vinham forasteiros. Foi um amor à primeira vista: ele ficou deslumbrado com o ar cristalino, o mistério e o vigor das montanhas, as numerosas cascatas, a serenidade dos lagos e das lagoas, os esquilos e até os enormes gatos monteses.

Começou a melhorar, escreveu cartas exultantes de entusiamo pelo lugar e, desde então, voltou por sete anos consecutivos a Sils Maria no verão, por temporadas de três ou quatro meses. Sempre foi um apreciador de caminhadas, mas, aqui, andar, subir por encostas íngremes, meditar nas alturas varridas pelos ventos onde às vezes aterrissavam as águias, rabiscar em seus caderninhos os aforismos, um dos seus meios de expressão favoritos, convertera-se num modo de vida.

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